1964 - OPERAÇÃO TERRA-MAR-AR NA GUINÉ


Província Ultramarina da Guiné, Portugal
15 de Janeiro a 24 de Março de 1964

A primeira operação conjunta de meios terrestres, navais e aéreos da sua história, e uma das maiores operações da Guerra do Ultramar, as Forças Armadas de Portugal lançaram a, 15 de Janeiro de 1964, a Operação "Tridente" sobre as ilhas de Caiar, Como e Catunco, a cerca de 90 km a Sul de Bissau, a capital da Província Ultramarina da Guiné, Portugal, visando atacar a que seria então, face à informação antes apurada, a mais importante base de guerilha do PAIGC ("Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde").

O agregado geográfico designado por Ilha de Como, tem uma superfície máxima de cerca de 210 km2, sendo a separação em 3 ilhas (i.e., Caiar, a Oeste; Como, ao Centro; e Catunco, a Leste) evidenciada aquando da subida da maré, alagando os múltiplos canais e zonas de tarrafes (mangais) que a atravessam de Norte a Sul. Na região centro localiza-se uma área de floresta densa (a "Mata de Cassaca", assinalada a verde no mapa) onde o PAIGC concentrava os seus meios e acções, com um efectivo estimado de 3 centenas de elementos.

A operação decorreu de 15 de Janeiro de 1964 até 24 de Março de 1964, ao longo de três grandes fases: uma primeira, a 15 e 16 de Janeiro, com o desembarque de 5 agrupamentos (designados alfabeticamente de "A" a "E") de forças de fuzileiros e de cavalaria, apoiados por meios de artilharia (a partir de Catió, a Norte das ilhas) e meios aéreos de reconhecimento e de ataque ao solo (a partir de Bissalanca, AB12/BA12, junto a Bissau); uma segunda fase, de 17 a 24 de Janeiro, com as incursões e patrulhas ofensivas das forças portuguesas no interior das ilhas; e uma terceira fase, de 24 de Janeiro a 24 de Março de 1964, especialmente concentrada na ilha de Como, na sua faixa de floresta densa, onde tiveram lugar os confrontos mais intensos da operação.

As forças portuguesas registaram 9 mortos e 47 feridos, tendo enfrentando dificuldades especiais decorrentes da escassez de água potável, da alimentação inadequada e do clima fisicamente exigente, que levaram a muitas baixas por doença, com a necessidade de evacuação de muitos militares, com um total de 193 doentes registados ao longo dos 71 dias de operação. Do lado do PAIGC ter-se-ão registado de 76 a 100 mortos, 15 a 100 feridos, e 9 prisioneiros. A Força Aérea Portuguesa viu várias das suas aeronaves atingidas (5 T-6 e 1 C-47), e uma delas, um T-6 "Texan", pilotado pelo Alferes João Santos Pité (em operação com outro T-6, pilotado pelo Capitão Orlando J. S. Gomes do Amaral), seria abatido na zona de Cauane e despenhar-se-ia na ilha de Caiar.

As forças terrestres, sob comando do Tenente-Coronel de Cavalaria Fernando Cavaleiro (comandante do Batalhão de Cavalaria n.º 490), foram compostas por 3 Companhias de Cavalaria ( CCAV 487, 488 e 489 ) e 3 Destacamentos Fuzileiros Especiais ( DFE 1, 2 e 8 ). Acresceram a tais sub-unidades, 1 Pelotão de Paraquedistas, 1 Grupo de Comandos, 1 Companhia de Caçadores, 1 Pelotão de Caçadores Fulas, 1 Pelotão de Morteiros, 2 bocas de fogo obus 8,8 (BAC), equipas de sapadores distribuídas pelas várias sub-unidades. Um total agregado de 1 000 a 1 200 elementos.

Os meios navais, comandados a partir da fragata Nuno Tristão (F332), classe "Diogo Gomes" (ex-classe britânica "River"), compreenderam, junto com a mesma, 4 lanchas de desembarque pequenas (LDP) e 2 lanchas de desembarque médias (LDM), com o apoio de 4 lanchas de fiscalização (LDF), estas armadas com canhão Oerlikon de 20mm e lança-foguetes múltiplos de 73mm (32 tubos). A Nuno Tristão (F333), modernizada, contava com convés (em estrutura de madeira) para operação de helicóptero - tendo, aliás, sido precisamente aqui a primeira aterragem de um helicóptero da Força Aérea Portuguesa num navio da Marinha Portuguesa, no caso um Alouette II (9206) pilotado pelo Tenente Villalobos Filipe. Participou ainda nas acções o Vouga (D334), um contratorpedeiro da classe Douro, projectando fogo de flagelação em apoio ao DFE n.º 8, em particular, numa acção a 30 de Janeiro de 1964, com mais de 300 projecteis de alto-explosivo das suas 4 peças de 120mm colocados na Mata de Cassaca, a cerca de 18,5 km a Norte da posição em que estavam fundeados.

Em termos de meios aéreos participaram na operação aeronaves de ataque F-86 "Sabre" e T-6 "Texan"; de reconhecimento e transporte ligeiro Dornier DO-27 e Auster D-5/160; de transporte, evacuação médica e apoio Alouette II; de bombardeamento (nocturno no caso) P2V5 "Neptune"; e de transporte C-47 "Dakota". Realizaram mais de 7 centenas de missões tácticas projectando 356 bombas e 719 foguetes.

O Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 8 ( DFE n.º 8 ) aqui presente, e que esteve afecto aos combates na região central da ilha de Como, era comandado pelo 1.º Tenente Fuzileiro Guilherme Almor de Alpoim Calvão - que, 6 anos mais tarde, a 22 de Novembro de 1970, viria a projectar e comandar a Operação "Mar Verde", ref. https://espada-e-escudo.blogspot.com/2023/04/forcas-especiais-portuguesas-em-assalto.html .

Mapa e infografia por "Espada & Escudo"
Fotos via OSINT



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