OS "8,8" DE OLIVEIRA PATRÍCIO NO CRISTO-REI


Almada, Portugal
25 de Abril de 1974

Às primeiras horas da manhã de 25 de Abril de 1974, uma bateria de obuses 8,8 (m/46) da Escola Prática de Artilharia, proveniente de Vendas Novas, comandada pelo Capitão Valdemar Oliveira Patrício, ocupou posição e instalou as suas bocas de fogo junto à praça do Monumento a Cristo Rei, geo-referenciação 38.67837263737507, -9.170919697108134 , https://goo.gl/maps/NA537dPcXQ9rZwEX7 , em Almada, parte da operação em curso pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) visando a deposição do governo então liderado, desde 1968, pelo Presidente do Conselho de Ministros Marcello Caetano. Estes obuses tinham por missão poder bater objectivos nos acessos à Ponte Salazar; objectivos em Lisboa, nomeadamente em Monsanto e no Terreiro do Paço (Praça do Comércio); e no Estuário do Rio Tejo.

Pelas 03h00 do dia 25 de Abril de 1974, militares da Escola Prática de Artilharia (EPA), em Vendas Novas, afectos ao Movimento das Forças Armadas (MFA), sairam deste unidade com a seguinte ordem de batalha: uma companhia motorizada de atiradores, comandada pelo Capitão José Manuel Mira Monteiro, e uma Bateria de Obuses 8,8 cm ( BTR ART 8.8 ), com 6 bocas de fogo, comandada pelo Capitão Valdemar Oliveira Patrício; e uma bateria de obuses 10,5 cm (BTR ART 10.5), com 4 bocas de fogo, comandada pelo Capitão Duarte Mendes - que se posicionaria nos acessos de Vendas Novas (Montemor-o-Novo e Lavre), interditando os eixos viários.

Cerca das 07h00 a companhia motorizada de atiradores da EPA, além de garantir a segurança da posição a ocupar pela BTR 8.8 junto ao Cristo-Rei, tomou a ligação Sul à Ponte Salazar, impedindo a possível manobra por aquela via de forças hostis ao movimento, e garantindo, mais tarde, a passagem de uma força de Fuzileiros e de uma força do Regimento de Cavalaria n.º 3, de Estremoz, que, cerca das 13h15, atravessaria a ponte para se juntar às forças comandadas pelo Capitão Salgueiro Maia junto ao Quartel da Guarda Nacional Republicana (GNR) no Largo do Carmo, em Lisboa.

A posição ocupada pela BTR 8.8 junto ao Cristo Rei distava cerca de 4 500 metros do Terreiro do Paço (Praça do Comércio) e um pouco menos ao troço do Tejo, em frente ao mesmo, onde, cerca das 09h30, viria a manobrar o NRP Almirante Gago Coutinho (F473), fragata da classe Almirante Pereira da Silva, deslocando 1 914 toneladas, com 95,6 metros de comprimento e 11,17 metros de boca, sob comando Capitão de Fragata António Seixas Louçã. O Capitão Oliveira Patrício recebeu ordens do comando do MFA para abrir fogo sob aquela fragata se a mesma, por sua vez, tomasse iniciativa de abrir fogo sobre as forças do movimento nas posições fronteiras à mesma. A F473 estava armada com um reparo de peça dupla Mk 33 de 76 mm à vante.

Cerca das 06h30, o Comando da 1.ª Região Aérea (Força Aérea Portuguesa, FAP), em Monsanto, informa o Comandante do Regimento de Caçadores Para-Quedistas, em Tancos, Coronel Fausto Marques, dos movimentos dos militares do MFA em Lisboa e indica que deverão entrar em prevenção e fazer deslocar para o Monsanto uma força de 4 helicópteros Aérospatiale SA-330 Puma com militares paraquedistas. A ordem não seria executada. Cerca das 10h00 a ordem é repetida e, mais uma vez, não foi executada. A posição ocupada pela BTR 8.8 distava cerca de 6 500 metros deste comando da FAP em Monsanto.

O obus 8,8, na notação oficial do Exército de Portugal, m/43/46, corresponde ao Ordnance QF ("Quick Fire") 25 Pdr Mk 2, de fabrico britânico. Tem uma massa total de 1 633 kgs, um comprimento de 4,6 metros (da extremidade frontal do tubo ao ponto de engate para reboque), com um tubo de 2,47 metros (28 calibres). O obus recebe munições em calibre 88 x 292mm R que pode projectar, na variante de alto-explosivo (HE), até cerca de 12 000 metros. Possui sistemas de pontaria para tiro directo e indirecto. Em modo directo podia operar como arma anti-carro, disparando cargas perfuradoras de blindagem (AP) com um alcance até 2 700 metros.

Serviu nas Unidades de Artilharia do Continente, na Índia, em Macau, em Timor e, em combate, durante a Guerra do Ultramar, no Teatro de Operações de Angola ( e.g. http://www.4cce.org/4cce-pedraverde.html#bart147 ), Moçambique e Guiné. Os obuses 8,8, tendo sido operacionalmente descontinuados em 1976, são ainda usados actualmente pelo Exército de Portugal, em cerimónias, por várias Baterias de Salva (e.g. https://www.facebook.com/photo/?fbid=2774682859447061&set=pcb.2774685499446797 ; e.g. https://www.facebook.com/photo/?fbid=2792778704304143&set=pcb.2792779230970757 ) .

Mapa e elementos infográficos por "Espada & Escudo"
Desenho técnico do obus por Hubert Cance
Foto F473 frente Terreiro do Paço por Alfredo Cunha
Foto BRT 8.8 junto ao Cristo Rei por EPA
Foto BRT 8.8 na estrada por EPA

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