1945 - Primeiro e único combate entre dois submarinos submersos com afundamento
Bergen, Noruega
9 de Fevereiro de 1945
A 9 de Fevereiro de 1945 o submarino britânico HMS Venturer, classe V da "Royal Navy", lançava quatro torpedos sobre o submarino alemão U-864, classe Type IXD2 da "Kriegsmarine", na costa Sudoeste da Noruega, a 31 milhas náuticas a Noroeste de Bergen, a duas milhas náuticas a Oeste da Ilha de Fedje, alcançando um impacto e o afundamento do mesmo, partido em duas secções, até ao leito oceânico a 150 metros de profundidade, sem sobreviventes. Tratou-se do primeiro e único afundamento registado em combate entre submarinos com ambos em contexto de operação em sub-superfície.
O U-864 ao serviço da 33.ª Flotilha, comandado pelo Capitão-de-corveta ("Korvettenkapitän") Ralf-Reimar Wolfram com 73 elementos a bordo, largou de Kiel, no Báltico, na Alemanha, a 5 de Dezembro de 1944, na Operação César ("Cäsar") de transferência estratégica de materiais e tecnologia militar com destino ao Japão, transportando, entre outros, 67 toneladas de mercúrio (distribuídas por 1 857 garrafas, em aço de 5mm, contendo 2,7 litros de mercúrio cada, destinadas à produção de detonadores para explosivos), documentação técnica e componentes de propulsão aeronáutica jacto e foguete, Junkers Jumo 109-004, BMW 109-003 e Walter HWK 109-509 (usadas nas aeronaves alemãs Messerschmitt Me-163 e Me-262 e aqui destinadas ao desenvolvimento, em particular, dos japoneses Mitsubishi J8M Shūsui que voaria em teste em Julho de 1945, e Nakajima Kikka que voaria em teste em Agosto de 1945).
Quatro dias após a largada, o submarino alemão registou anomalias no seu sistema de "snorkelling", aportando, a 9 de Dezembro de 1944, em Horten, na Noruega, para reparações. Retomando a sua missão viria, após colisão com um recife, a ser forçado a um desvio para reparações em Farsund, e de prosseguir dali até à base de Bergen, onde atracou nas suas estruturas fortificadas a 5 de Janeiro de 1945. Bergen seria entretanto, a 12 de Janeiro de 1945, alvo de um ataque por bombardeiros da "Royal Air Force". O U-864 sofreu alguns danos em resultado deste ataque e viria, após reparações e testes de mar, a retomar a sua missão rumo ao Japão.
Com cruzamento de informação rádio interceptada, e descodificada via Ultra (com sede em Bletchley Park, Inglaterra), que desde 1942 tinha alcance alargado sobre as comunicações navais cifradas alemãs do sistema M4 e da chave "Shark" (evolução da plataforma "Enigma"), era conhecida a missão e foi identificada a largada de Bergen. Foi destacado, a partir de Lerwick, na Escócia, o submarino HMS Venturer (P68), comandado pelo Tenente James "Jimmy" Stuart Launders, que recebe ordens para interceptar e destruir o U-864 que, entretanto, com anomalias num dos seus motores diesel, tornando o mesmo mais ruidoso, retornava a Bergen.
O HMS Venturer, pelas 09:32 de 9 de Fevereiro de 1945, detecta um registo fraco de efeito hidrofónico (resultado acrescido da anomalia de motor do submarino alemão), que se repetiria cerca de 40 minutos depois. A operar sem fazer uso da sua plataforma de sonar activo (ASDIC), para evitar a sua detecção, acaba por identificar, ao usar o seu periscópio, o periscópio do U-864.
O comandante do submarino da "Royal Navy", ao final de três horas de perseguição ao submarino da "Kriegsmarine", usando os registos hidrofónicos, identificando um padrão de evasão "zig zag" e estabelecendo cálculos preditivos até então não usados nem treinados, dá a ordem para disparo de todo os quatro torpedos dos seus tubos frontais, numa salva executada com um intervalo de 17,5 segundos entre cada disparo e a diferentes profundidades, criando uma matriz tridimensional que deveria, nos cálculos efectuados pelos especialistas britânicos, alcançar impacto no submarino alemão. Ao contrário das soluções de tiro calculadas face a navios à superfície, bidimensionais, em que a profundidade do objectivo não varia, a solução de tiro aqui era tridimensional com profundidade variável, em resultado do padrão evasivo do mesmo.
A manobra evasiva do U-864, demorada pela necessidade de executar a transição de navegação com "snorkelling" da motorização diesel para a motorização eléctrica, consegue escapar aos primeiros três torpedos, mas não ao quarto e último torpedo da salva, que alcançou impacto e detonação, partindo o submarino literalmente a meio, e afundando o mesmo, sem sobreviventes. A bordo estavam, além dos militares da "Kriegsmarine", dois engenheiros alemães da Messerschmitt, Riclef Schomerus e Rolf von Chlingensperg, um especialista japonês, Toshio Nakai, em combustíveis aeronáuticos e um especialista japonês, Tadao Yamoto, em torpedos.
A classe Type IXD2 da "Kriegsmarine", de tipologia oceânica de longo alcance, deslocava 1 799 toneladas submerso, com 87,58 metros de comprimento e uma boca de 7,50 metros, capaz de uma velocidade de superfície de 20,8 nós e de sub-superfície de 6,9 nós, com um alcance de 12 750 milhas náuticas à superfície e de 57 milhas náuticas submerso, podendo alcançar um máximo de 230 metros de profundidade. Guarnecido por 55 a 63 militares, estava armado com seis tubos lança-torpedos (quatro à vante e dois à ré) podendo transportar até 24 torpedos de 533 mm (quantidade reduzida quando, como aqui sucede, em transporte de carga), com uma peça de artilharia de 10,5 cm SK C/32 (com até 150 munições), com uma peça de 37mm Flak M42 e com uma peça "dupla" de 20 mm C/30, estas duas usadas tipicamente como defesa anti-aérea.
A classe V da "Royal Navy", de menor porte e vocacionado para patrulhas costeiras, deslocava 735 toneladas submerso, com 59,59 metros de comprimento e uma boca de 4,80 metros, capaz de uma velocidade de superfície de 11,5 nós e de uma velocidade submersa de 9 nós, com um alcance de 4 050 milhas náuticas à superfície, a 10 nós, e de 23 milhas náuticas submerso, a 8 nós, ou 170 milhas náuticas a 2,5 nós, podendo alcançar uma profundidade máxima de 91 metros. Guarnecida por 37 elementos, estava armado com quatro tubos lança-torpedos de 533 mm, todos à vante, transportando até 8 torpedos, com uma peça de artilharia de 76 mm e com três metralhadoras de calibre .303, estas usadas como defesa anti-aérea.
O destroço do U-864 seria localizado na noite de 22 de Fevereiro de 2003, georreferenciação 60.7694396, 4.6210593, pelo navio navio especial de busca e operações submarinas e de controlo de minas "Tyr" (N50) da Marinha Norueguesa. A localização surgiu na sequência de alertas sobre a possível carga de mercúrio transmitidos às autoridades ambientais norueguesas pelo investigador alemão Wolfgang Lauenstein. O "Tyr" confirmou por sonar a presença dos dois principais sectores do destroço, separados no leito oceânico, sendo as primeiras investigações subsequentes iniciadas ainda nesse ano. A carga de mercúrio do U-864 passou a constituir um problema ambiental de longo prazo para as autoridades norueguesas, com sucessivos estudos sobre três soluções: cobrir o destroço e os sedimentos contaminados, retirar primeiro a carga de mercúrio e cobrir depois a área, ou recuperar o destroço e a carga para posterior cobertura do fundo marinho.
Segundo o Instituto Norueguês de Investigação Marinha ("Havforskningsinstituttet") e a Administração Costeira da Noruega ("Kystverket"), nas operações posteriores à localização do U-864 foram recolhidas oito garrafas metálicas de mercúrio, apenas uma delas intacta e ainda com conteúdo, tendo a corrosão dos recipientes e a contaminação dos sedimentos confirmado fugas para o leito marinho, o que levou à interdição da pesca na zona e, em 2016, à construção de uma estrutura submarina de contenção e estabilização com cerca de 30 000 toneladas de areia e 160 000 toneladas de enrocamento.
Imagem de modelização digital do U-864 (secção de popa) de Maio de 2025 via "Kystverket". Imagens de sonar do U-864, com as duas secções no leito oceânico, de 2013, via "Kystverket". Infografia simplificada, sobre Google Maps, editada por E&E.









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