Operação "Blackleg" - Mergulhadores da "Royal Navy" em Recuperação e Destruição de Materiais Classificados em "destroyer" afundado durante a Guerra das Falklands


Falklands, Atlântico Sul 
1982-1983

Após o afundamento, a 25 de Maio de 1982, do "destroyer" HMS Coventry (D118) da Marinha do Reino Unido, atacado por bombas da Força Aérea Argentina no decurso da Guerra das Falklands, no Atlântico Sul, os britânicos desencadearam, em Setembro de 1982, cerca de três meses após a rendição das forças argentinas nas Falklands e o termo dos combates no arquipélago, a Operação "Blackleg", visando recuperar ou destruir quaisquer materiais, equipamentos ou informações sensíveis que permanecessem a bordo do "destroyer", incluindo documentação e material classificados do Reino Unido e da NATO, cuja eventual recuperação por uma potência hostil poderia comprometer informação sensível da Aliança.
O HMS Coventry, da classe Type 42, com 125 metros de comprimento, 14,3 metros de boca, um calado de 5,8 metros e deslocando 4 820 toneladas, com um guarnição de 287 elementos, foi atingido pelo bordo de bombordo por três bombas de 250 kg lançadas por um dos Douglas A-4 Skyhawks de uma força de ataque argentina, com impacto junto à linha de água, tendo duas delas detonado - uma na sala de máquinas de conversão, sob a sala de computadores, destruindo esta e devastando a sala de operações; e outra na sala de máquinas de vante, sob a messe dos praças, onde se encontrava um posto de primeiros socorros. O navio seria abandonado decorridos cerca de 20 minutos, adornando e afundando-se rapidamente, registando-se 19 baixas mortais e 30 feridos.
Com o destroço afundado a uma profundidade de cerca de 100 metros, a 11,3 milhas náuticas (21 km) a Norte da Ilha de Pebble, 51°04.077′S, 59°42.626′W, contendo materiais classificados de comunicações e de cifra, publicações confidenciais, sistemas de armas e plataformas conexas, incluindo material classificado e sensível NATO, foi decidido desencadear uma operação com vista à recuperação ou destruição dos mesmos. Liderada pelo (OF-3) Capitão-Tenente Michael David Kooner da "Royal Navy", comandando o navio de apoio de mergulho e resgate MV Stena Seaspread e responsável pela Naval Party 2200 (NP 2200), constituída por uma força de 25 mergulhadores especializados da Marinha, e 13 elementos de apoio, projectados a partir de Portsmouth (Inglaterra), a 16 de Setembro de 1982, a Operação "Blackleg" decorreria nas Falklands de 13 de Outubro de 1982 a 2 de Janeiro de 1983, regressando a Portsmouth a 28 de Janeiro de 1983.
O primeiro mergulho teria lugar a 14 de Outubro de 1982, tendo sido realizadas 600 horas de trabalhos de mergulho, com recurso à técnica de saturação, ao longo de cerca de dois meses e meio, até ao final da operação. A "Blackleg" compreendeu cinco mergulhos/ciclos: o "Dive 001", de preparação e validação, destinou-se a testar o sistema de mergulho de saturação; o "Dive 002" iniciou os trabalhos no HMS Coventry, incluindo a instalação de "transponders" para o posicionamento dinâmico do MV Stena Seaspread, a abertura do casco com equipamento de corte oxi-arco e o acesso aos compartimentos de Comunicações e Guerra Electrónica; o "Dive 003" concentrou-se na penetração da Sala de Operações e Sala de Computadores e na recuperação de material criptográfico e documentação classificada; o "Dive 004" completou a busca e limpeza dos restantes compartimentos sensíveis, incluindo o gabinete do radar "Type 909", seguindo-se trabalhos exteriores de recuperação de equipamentos e preparação de demolições, entre eles a remoção da antena do radar "Type 965" e a colocação de cargas nos mísseis "Sea Dart"; finalmente, o "Dive 005", com apenas 17 horas de tempo efectivo na água, destinou-se à inspecção final dos trabalhos, conclusão das demolições dos "Sea Dart" e verificação do estado do destroço.
Foram, assim, recuperadas as publicações, livros, fitas e restante material classificado dos compartimentos de comunicações, guerra electrónica, operações e do gabinete do radar Type 909, a documentação confidencial do cofre do comandante, bem como outros documentos e materiais classificados existentes nos cofres e escritórios do navio, antenas classificadas, incluindo a antena AKE(2) do radar Type 965, separada do respectivo mastro por cargas explosivas e posteriormente içada para a superfície; e destruídos, por acção de cargas de explosivo plástico, todos os mísseis "Sea Dart" remanescentes, um ainda no lançador e os restantes no respectivo paiol.
Foram igualmente recuperados o pavilhão de combate do HMS Coventry, a "Cross of Nails" da Catedral de Coventry, a espada cerimonial e o telescópio do comandante, peças de prata existentes no seu cofre, o emblema do navio, placas do convés com o nome "Coventry" e a bússola repetidora do estibordo da ponte.
O MV Stena Seaspread, propriedade da Stena Atlantic e fretada pelo Ministério da Defesa do Reino Unido, a partir do qual foram conduzidos os mergulhos e comandadas as operações locais, era um navio de apoio de mergulho, construído em 1980 pelos estaleiros Öresundsvarvet, em Landskrona, Suécia, com cerca de 112 metros de comprimento, 21 metros de boca e 6 061 toneladas de arqueação bruta, dotado de propulsão diesel-eléctrica, sistema de posicionamento dinâmico e instalações próprias para mergulho de saturação. Dispunha de cinco grupos diesel-geradores Nohab Polar F216V-C900, com 2 650 kW cada, uma velocidade máxima da ordem dos 15,6-16 nós e uma autonomia indicada de cerca de 21 000 milhas sem reabastecimento. O sistema propulsor e de manobra, com cinco propulsores, permitia-lhe deslocar-se longitudinal e lateralmente e, conjugado com o posicionamento dinâmico computorizado, manter automaticamente a posição com uma precisão da ordem dos três metros, mesmo sob vento de força 9. Contava ainda com sistema de estabilização capaz de reduzir o balanço em até cerca de 75%, um convés de trabalho livre com aproximadamente 58 × 17 metros, meios de elevação com capacidade até 100 toneladas, alojamento para 112 pessoas e convés de voo para helicópteros. O sistema de mergulho de saturação compreendia duas câmaras hiperbáricas com capacidade para seis mergulhadores cada, ligadas à campânula de mergulho, lançada através de uma abertura ("moon pool") no casco, características que lhe permitiam manter posição sobre o destroço e sustentar operações de mergulho prolongadas a grande profundidade.



Ilustração via "Ministry of Defence" (MoD) | "Royal Navy", de 1983, do HMS Coventry (D118) sobre o leito oceânico e com operação em curso a partir do MV Stena Seaspread.




Foto HMS Coventry (D118) atingido e a adornar, afundando, 25 de Maio de 1982, Falklands, pelo (OF-1) Segundo-Tenente Clive Pickering ("Royal Navy") a partir da fragata HMS Broadsword (F88).




Foto MV Stena Seaspread em Portsmouth, Agosto de 1982, por Hugh Llewelyn.


Diagramas técnicos via Project Vernon (UK)

Fotos Míssil SeaDart e Radar Type 965, Outubro de 1982, via website "HMS Coventry (D118)" | Damien Burke









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